Crônica sobre um dia ganho

Publicado em 16/02/13

De vez em quando nos surpreendemos com as pessoas. Para bem ou para mal. Sorte minha que desta vez foi uma boa surpresa. O texto abaixo é do Nicholas Koterba, da 3B1. É uma crônica em que ele demonstra muita sensibilidade. Mais que isso, ele propõe uma reflexão sobre um assunto que ultimamente procuramos evitar: Deus.

“Foi um dia marcante na minha vida. Fruto de um encontro nada usual. Uma conversa com um morador de rua que durou mais de hora, em meio a toda chuva que São Paulo nos dá. No dia anterior, acordei com febre. Ainda assim, fui fazer vestibular pensando que desistiria no meio. No final de contas, fui até o fim. Voltei para casa. Fui dormir ainda mais péssimo, e tive, pois não há como descrever,a pior noite em toda a minha vida. Acordei em delírio, chorando em completo desespero, não sei do quê. Tudo que lembro é que foi a pior de todas as sensações. Ia viajar, mas quando acordei, já não havia tempo. Viagem cancelada, e mais febre. Sem hesitar, fui ao encontro dos meus pais, que almoçavam com amigos e familiares num restaurante. Começa minha aventura. Voltando pra casa, aos portões do prédio, havia um mendigo idoso carregando um carrinho destes de feira. Tentava empurrar o carrinho e subir um degrau. Pedi para meu pai dar passagem e assim que aquele tentou prosseguir, caiu inerte no meio fio, que vinha com uma quantidade imensa água. Ajudamos a levantar-se. Entramos. Eu, angustiado em ver o pobre inteiramente molhado, sem poder fazer nada. Da varanda, depois de uns minutos, não vi nada mais que o homem, lá, imóvel. No exato lugar em que o deixamos. Debaixo de chuva. Condoído, com um guarda-chuva e um bom pedaço de panetone, fui ajudar. Ofereci auxílio, peguei o braço do homem. Não estava(mos) nada bem. O trajeto até a esquina durou dezenas de vezes mais do que jamais levaria. No caminho, comecei a conversar com o sujeito. E foi incrível. Foi longa, muito longa nossa conversa. Por quatro vezes o homem se apresentou dizendo que se chamava José. E por quatro vezes disse meu nome ao Zé, que passou a me chamar de Nico, pelo menos até esquecer-se e perguntar de novo. Em certo ponto, perguntei se ele havia bebido. Respondeu que sim, e muito. Mais um pouco, perguntei-lhe quantos anos tinha. Disse que tinha 64. Eu não acreditei. Doente como estava, insanamente molhado, frio, repleto de rugas que transpareciam uma vida de desavenças. Perguntei quanto tempo vivia assim. Disse que nascera assim. Depois, num tom mais baixo, porém ainda com cabeça erguida, falou: ‘e vou morrer assim’. Não pude mais do que replicar que ele morreria melhor. Nada mais. Ele perguntou, ‘como?’ Não sabia o que retrucar. Me pusera numa situação que eu não sabia sair. De antemão, devo reconhecer que eu não sou cristão dedicado. Ainda assim, admito que conheço o poder que a figura Deus tem sobre a vida das pessoas, e o quanto a Fé pode amparar os desolados. Fui logo então falando que Deus iria mostrar-lhe o caminho. Basta ter Fé. Zé não disse nada. Um tempo depois, repetiu, ‘vou morrer assim…’, agora mais triste. E novamente, repeti minha humilde preleção.

Ele olhou pra mim e disse,  ‘Sabe o que eu estou segurando?’

Eu, ingenuamente, Uma bengala?

Este mudou a pergunta, e falou: ‘Sabe o que é Deus?’

Não respondi. Não sabia qual era resposta. Confesso que não sabia nem ao menos se um dia descobriria.

De novo, ele disse: ‘Você sabe o que é Deus?’

Houve um momento de silêncio.

Deus é isso’, disse Zé, olhando pra mim. Eu, de início, não entendi.

‘É isso’, de novo, olhando fixamente para mim.

Sorri. E continuamos viagem.”

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