Botsuana: uma exceção na África Subsaariana

Publicado em 19/08/12

O texto desta semana é do Fernando Al Assal, da 3E1. Ele coloca em questão  se a herança do imperialismo na África é tão insuperável quanto se supõe. Excelente tema e excelente texto.

“Muito se fala na África, em especial a sul do Saara, como um conjunto de países caóticos, pobres, governados por ditadores autoritários e com população faminta, doente e violenta. Geralmente todo esse mal é atribuído ao imperialismo europeu, muitas vezes tido como incurável, mas não faz parte do senso comum que um dos países que mais cresceu desde 1965 (período em que PIB per capta aumentou em 16 vezes, passando do brasileiro e se aproximando do chileno) fica nessa região do globo. Não é a emergente África do Sul, sim seu vizinho setentrional – a Botsuana.

É natural questionar o que fez esse país, com 84% de seu território no quase inabitável deserto do Kalahari, entrar nessa relativa prosperidade, enquanto seus vizinhos experimentam uma miserável estagnação. Analisado a história da nação e comparando-a com a de outros países africanos, obtêm-se respostas interessantes.

A sociedade pré-colonial dos Tswana tem aspectos interessantes e pouco comuns na maioria dos grupos bantos – os chefes tribais não eram autoritários, e em assembleias (kgotlas), discutiam com homens adultos questões de importância pública, constituindo uma protodemocracia. Habitavam terras áridas que só foram anexadas ao Império Britânico por interesse estratégico, o que não significa que não sofreram graves problemas com o colonialismo – os impostos que deveriam ser pagos aos britânicos em libras esterlinas tiveram um impacto profundo na economia local de subsistência, fazendo que, em 1943, 50% dos homens adultos do Protetorado de Bechuanalândia (atual Botsuana) migrassem para a África do Sul em busca de trabalho, o que trouxe consequências sociais ruins óbvias.

No pós-guerra, seguindo a tendência de descolonização, surge Botsuana independente, o terceiro país mais pobre do mundo. O bom governo pós-colonial, democrático e transparente, foi determinante para o relativo sucesso da nação. Consciente de sua pobreza, o governo limitava os gastos, não emitindo moedas loucamente a ponto de o dinheiro local ser usado como papel higiênico, como ocorreu no Zimbábue de Robert Mugabe – Botsuana permaneceu sem exército até 1977, o que permitiu acúmulo de recursos e evitou a corrupção.

Além disso, outro ponto que deve ser mencionado é que as instituições culturais tradicionais do povo Tswana foram, de certa forma, mantidas, sem nenhuma brusca tentativa de “modernização”, como foi comum no resto da África subsaariana, onde esforços foram feitos para cortar elos com o passado pré-colonial, tido como inferior. Tal medida deu legitimidade à constituição e ao sistema político adotados, de inspiração britânica e coerentes com a protodemocracia dos kgotlas.

A liberdade foi de grande importância para a prosperidade de Botsuana. O país sempre aceitou imigrantes e refugiados de nações vizinhas, mergulhadas em conflitos, sem quaisquer restrições étnicas ou culturais, algo que foi extremamente saudável para seu crescimento. A liberdade econômica também foi importante – enquanto outros países africanos viam em Marx e Lênin o caminho para o sucesso, realmente acreditando que conseguiriam prosperar separados do capitalismo ocidental, Botsuana foi se integrando ao mercado mundial, com sucesso catalisado pela estabilidade e descoberta de diamantes em seu território. Isso também livrou o país da ineficiente ajuda ocidental, que apresenta soluções pouco pragmáticas, muitas vezes ignorando a simples integração ao capitalismo global.

A conclusão disso tudo não é que Botsuana é algum tipo de utopia africana – o país ainda enfrenta graves problemas, sendo o mais notável a epidemia da AIDS, que atinge um em cada seis haabitantes. Mas seu sucesso relativo é inegável, desmentindo a crença de que o imperialismo europeu é uma cicatriz incurável. O apego à democracia, às instituições culturais tradicionais e à liberdade econômica hão de servir como lições às nações pobres do terceiro mundo.”

Referências/Para saber mais:

  1. en.wikipedia.org/wiki/Botswana
  2. Explaining Botswana’s Success: The Critical Role of Post-Colonial Policy – Scott A. Beaulier
  3. Is Botswana Exportable? – Scott A. Beaulier
  4. Botswana’s Future: Modeling Population and Sustainable Development Challenges in The Era of HIV/AIDS – Warren C. Sanderson, Molly E. Hellmuth, e Kenneth M. Strzepe
  5. http://www.youtube.com/watch?v=7071wstBp1k
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