Quando um é maior que 36 milhões: sobre John Boyne

Este ano as turmas de Biológicas tem se revelado assíduas frequentadoras deste Blog. Mais um texto da 3B2 – recordista de posts. Hoje o texto é da Vitória Koga (48), que escreveu sobre John Boyne, o autor do livro “O Menino do Pijama Listrado”.

“John Boyne tem o incrível talento de pessoalizar acontecimentos históricos. Suas obras conseguem comover e cativar de uma maneira única os momentos que marcaram a história. Ele tranforma o todo na parte, torna milhões de vítimas em uma pessoa, com uma trajetória, com uma origem,com uma família,com sentimentos. O escritor trata-as como gente como nós, e não como uma simples estatística, um número como outro qualquer, afinal,o que são 36 milhões quando comparados a singularidade da existência de cada ser humano ? Foi exatamente  isso o que ele fez em  O menino do pijama listrado, ao invés de generalizar, se focou mais em um menino judeu (Shmuel)  e em um senhor que era médico, mas realizava o trabalho de descascar legumes e vegetais (Pavel) e suas relações com uma família alemã cujo pai era um militar que estava diretamente ligando às atividades de um campo de extermínio. Boyne nos lembrou também que nem todos os alemães concordavam com os delírios dos nazistas ou sabiam o que realmente acontecia em campos de concentração, e que muitos eram inocentes e não entendiam o ódio sem  razão contra os judeus, a exemplo de Bruno, um dos protagonistas, que era o filho da família alemã citada anteriormente, e que se relacionava normalmente com Shmuel e Pavel, de sua mãe, e de sua avó. O escritor mostra também o ensino nacionalista que era dado às crianças, a grotesca forma com que os militares nazistas tratavam os judeus e como eles pressionavam a sociedade a olhá-los de outra forma e o fato de que fisicamente não existiam traços que caracterizavam um suposto puro descendente do povo ariano ou mesmo um judeu. esumindo, Boyne consegue trazer acontecimentos que aparentam ser distantes a nossa realidade. Com isso, a ideia de que todos nós somos iguais é reforçada e surge a possibilidade de se analisar a Guerra mais humanizadamente e menos didática, teórica, causando um impacto ainda maior. Assim, acredito que as pessoas passam a refletir mais sobre o conflito que foi causado por uma postura chauvinista, fazendo com que elas valorizem o fim do preconceito que ainda reside entre nós de diversar formas, não menos injustas do que as do contexto da obra. ostaria de aproveitar a oportunidade e recomentar a leitura do livro O palácio de Inverno, do mesmo autor, que é um romance que tem com um de seus tempos a Revolução Russa.”

Deus no banco dos réus

Embora as as aulas sobre o nazismo tenham terminado há umas três semanas, o tema ainda repercute. A Angela (3H1/5) mandou uma resenha de umas duas páginas muito bem escritas sobre o filme para TV God On Trial, que tem o Holocausto como pano de fundo. Aí eu disse a ela que duas páginas eram demais. Então ela reduziu, mas o texto continuou incrível. Quem gostar do resumo, peça a ela o texto original.

“Filmes de Guerra não faltam. No entanto, God on Trial causa – com muito menos pirotecnia – mais impacto do que a grande maioria. De 2008, trata-se na verdade de uma peça feita para televisão e filmada pela BBC. Não há mudanças radicais de cenário, nem efeitos especiais. Todo o desenrolar da história se passa em um barracão de Auschwitz onde seus ocupantes decidem, nas poucas horas que lhes restam antes que metade do grupo seja mandada para a câmara de gás, julgar Deus. Ele é acusado de quebra de contrato, já que teria feito um pacto com os judeus e depois os abandonado à própria sorte. O par central é formado por Mordechai, um jovem judeu que culpa Deus pelo holocausto, e seu pai, o tradicionalista Khun que crê que, ao duvidar da vontade divina, o filho estaria descumprindo o lado humano do acordo. É possível conhecer a mente de Deus? Não, mas tampouco é necessário ler a mente de alguém para saber se houve ou não quebra de contrato. O holocausto, as inundações e pragas do Egito são colocados ora como punição, ora como indiferença e até crueldade da parte divina. O argumento de que os judeus sobreviverão é o suficiente para afirmar que se trata de uma purificação? God on Trial não é, no entanto, um filme sobre religião e tampouco um filme de guerra. Trata-se de um filme sobre a guerra e o que ela faz às pessoas levadas a uma situação extrema, sobre o irracionalismo que é o preconceito que agrupa indivíduos distintos como um único bloco cinzento. Pois não é no veredicto – que eles atingem após um discurso inflamado e surpreendente do rabino do grupo – que está a grande força do filme. É nas histórias daqueles homens tão diferentes e ao mesmo tempo tão iguais, homogeneizados pelas cabeças raspadas e os uniformes listrados, contadas num ritmo de crescente tensão enquanto esperam seus destinos – na forma de um oficial nazista – bater à porta e decidir em um instante o seu futuro, ou a falta dele. É na percepção de que os critérios de seleção de quem era indesejável passava muito longe do branco e preto. Ortodoxos misturam-se com aqueles que não agem, falam ou parecem judeus, como o físico Jacques.  O alemão Baumgarten não é judeu.  Em seu monólogo final, ele resume o horror dos campos de extermínio de Hitler. ‘Não sou judeu. (…). Meus filhos se juntaram a Juventude Hitlerista. No ano passado, quando a Gestapo veio, foi a primeira vez que eu soube sobre minha origem. Eu achava que fosse um alemão normal… Eu era um alemão, um que odiava judeus. (…) Nunca tinha ouvido uma palavra da Tora antes de vir para cá. (…) Eu cresci ouvindo que os judeus eram imundos, desonestos e desorganizados. E quando eu vim para cá [Auschwitz], tudo que eu acreditava era verdade. Esse lugar é caótico, imundo e desorganizado e eu achei que fosse por causa dos judeus. (…) Você acha que é algum erro? Acha que um engenheiro alemão não colocaria esgoto suficiente por engano? Nada aqui é acidental. A sujeira é parte do sistema tanto quanto as cercas, e… o outro equipamento. Está aqui para levar embora sua dignidade, sua humanidade. (…) Para mandar os alemães nos matarem, eles tem que primeiro mostrar a eles que nos somos o que um alemão normal é ensinado a acreditar que somos: sujos, desprovidos de moral e Deus. Quando você chegou aqui, tiraram sua propriedade, seu nome, cortaram seu cabelo, tiraram suas crianças, esposas, mães. Ate as obturações dos seus dentes. Tudo que o fazia um homem foi levado. (…)’. Conclui, pedindo para que os outros dois juízes não deixem os nazistas “levarem seu Deus também. Deixem haver alguma coisa que eles não possam tirar de vocês. De nós.” Quando os guardas e o médico irrompem dentro do barracão, lendo os números dos selecionados para morte, um dos mais jovens se desespera: ‘E agora, o que fazemos?’. O rabino, calmamente, responde: ‘Agora, nós rezamos’.”

Futebol Terror.

Normalmente posts sobre futebol não são aceitos neste Blog, já que existem inúmeros blogs deste negócio na rede. Além disso, o futebol é um “esporte” que abre espaço para o exercício de inúmeros preconceitos, como o racismo, o preconceito contra pobres ou nordestinos ou  contra os homosexuais. Os torcedores de um determinado time da capital, por exemplo, sabem bem como muita gente usa o futebol para exercer estes preconceitos sob rótulo de “brincadeira”. Por estas e por outras, evita-se  o futebol por aqui.  Porém, é preciso abrir uma exceção.

O Vinicius (3B1), torcedor do Santos, escreveu uma reflexão simples sobre o futebol que eu acho que não custa pensar sobre.

“Não há duvidas de que o futebol seja de suma importância para o povo brasileiro. Dentre os aspectos positivos trazidos pelo futebol, vale destacar dois. O primeiro é a união e a identidade das pessoas de um mesmo país em torno de um único alvo – a seleção nacional – criando um nacionalismo fortemente demonstrado em períodos de jogos da seleção. O segundo é o fato de o futebol possibilitar uma fuga das dificuldades de nosso dia a dia e proporcionar esperanças e alegrias.

Contudo, existem também os aspectos negativos, graças a disparidades em seus conceitos, os quais são muito preocupantes. Como primeiro, pode-se apontar o forte estimulo ao desprezo à educação. Os jogadores, na maioria das vezes, são de origem humilde e têm baixo nível de escolaridade e, por isso, mal sabem se expressar e opinar de maneira crítica. Como eles são vistos como ídolos, há uma séria inversão de valores na sociedade, porque se valoriza a habilidade de jogar em detrimento da educação. O segundo fator negativo é a desunião e consequente discriminação entre pessoas de diferentes torcidas, levando a uma situação que poderia ser comparada ao chauvinismo presente nas disputas políticas que envolveram a Alemanha na primeira metade do século XX. Os alemães desenvolveram um ódio tão grande com relação a seus “inimigos” (judeus, ciganos; enfim, SERES HUMANOS assim como eles) que, no final, causaram uma guerra e o maior etnocídio que a humanidade já presenciou.

Não se pode declarar que o futebol deve ser abolido para o bem do Brasil, já que ele traz diversos fatores positivos. Todavia, temos que tomar cuidado com a gama de sentimentos e emoções envolvidos, pois, caso contrário, em breve existirão aqueles que, por exemplo, defenderão corintianos em campos de concentração, ou algo parecido. Até que ponto o fanatismo pelo futebol vale a pena?”

A dor da guerra no Vietnã

Imagem icônica de uma menina vietnamita correndo nua após o bombardeio de sua vila completa 40 anos na semana que vem (Foto: Nick Ut/AP)

Nick Ut/Associated Press

A Guerra do Vietnã foi um dos conflitos mais terríveis de um século de conflitos terríveis. O envolvimento dos Estados Unidos, direto ou indireto, durou aproximadamente vinte anos, de 1955 a 1975, embora oficialmente tenham se envolvido apenas entre 1964 e 1973, o que já seria exagerado. Sob pretexto de combater o comunismo no Sudeste da Ásia e levar a democracia e bens de consumo  ao povo do Vietnã do Sul (evidentemente sem perguntar aos vietnamitas se eles queriam tudo isso), os norte-americanos despejaram neste pequeno país mais bombas que em toda a Segunda Guerra Mundial. Armaram a ditadura militar do Vietnã do Sul com as armas mais modernas e destrutivas da época, com exceção da bomba atômica. O resultado foi uma catástrofe ecológica e humana. Uma das cenas mais marcantes desta catástrofe faz quarenta anos esta semana (dia 8 de junho). A foto de um repórter vietnamita conhecido como Nick Ut, mostra um ataque de napalm (mistura explosiva de gasolina e fósforo, destinada a destruir a cobertura vegetal das florestas que  protegiam os guerilheiros comunistas do Vietcong, queimando não só a vegetação, mas também os animais e as pessoas que estivessem no caminho) da força aérea sul-vietnamita à aldeia de Trang Bang, disputada pelos dois lados, em junho de 1972. A foto comoveu o mundo. Para os vietnamitas, um povo cujo sofrimento era companheiro contante, um dia típico, nada mais…

Pérsio Santiago

(Crédito da imagem: http://www1.folha.uol.com.br/mundo/1099055-foto-iconica-da-guerra-do-vietna-completa-40-anos-em-junho.shtml, acessada em 03/06/2012, às 09:25)

A Revolução dos Cravos e a ditadura brasileira

E a Bruna (3B2/5) está de volta. Desta vez ela  escreveu sobre a Revolução dos Cravos, o movimento militar que colocou fim a 42 anos de ditadura salazarista em Portugal e sua repercussão  junto à ditadura brasileira.

“Passava da meia noite quando ’Grândola, Vila Morena’ ecoou pelos rádios lusitanos. A música, proibida pela ditadura, era um sinal para o início da revolução, da qual depois virou um hino. Era 25 de abril de 1974 quando os militares chegaram a Praça do Comércio, onde ficavam os ministérios. Sem resistência, em poucas horas caiu a ditadura de Salazar, comandada por Marcello Caetano, seu sucessor.

Não se sabe bem a razão, mas todos os soldados portavam cravos em suas espingardas. Alguns dizem que uma florista, que iria fazer uma entrega em um hotel, encontrou um militar, a quem deu o cravo. Seus companheiros do pelotão rapidamente o imitaram, e a flor tornou-se símbolo do 25 de Abril.

No Brasil, a Revolução dos Cravos serviu para estimular a oposição à ditadura. Portugal, a antiga metrópole, que antes era um símbolo de conservadorismo, tornou-se um exemplo a ser seguido pelo nosso povo.  Chico Buarque escreveu, em 1975, a música ‘Tanto Mar’, que em seus versos (obviamente censurados) diz: ‘Lá faz primavera, pá/ cá estou doente/ manda urgentemente/ algum cheirinho de alecrim’.

O que mais surpreende, talvez, é a posição do governo brasileiro: dois dias após a queda do Estado Novo, foi o primeiro país a reconhecer o novo governo português, que se aproximava do bloco soviético. Também serviu de mediador entre as colônias e os lusos, para facilitar o processo de independência, além de oferecer asilo a Caetano.

A postura contraditória do nosso país pode ser em parte justificada pelo antiamericanismo do então presidente Geisel e, por outro lado, explicada pelo interesse de o Brasil se tornar o ‘herdeiro natural’ das colônias africanas, como disse o embaixador brasileiro em Angola Álvaro Lins.  Os portugueses, afinal, não estavam ‘orgulhosamente sós’: contra todas as chances, puderam contar com o apoio brasileiro.”

(crédito da imagem: http://topazio1950.blogs.sapo.pt/172849.html)

Disputas políticas em Roma.

Finalmente alguém escreveu um texto sobre História Antiga para este Blog. É a Giovanna (3B2/18). Geralmente os alunos torcem o nariz para este tema, já que poucos enxergam alguma relação com a realidade. Entretanto, se vocês estão acompanhando toda a movimentação política que atualmente acontece em Brasília, é impossível refletir sobre o paralelo. Estão tão distantes de nós assim?

Na tentativa de acabar com o domínio etrusco na região mediterrânea, implantou-se a República em Roma, que em apenas três séculos (IV ao II a.C) fez dessa cidade do Lácio, a capital do maior império de todos os tempos. Enquanto consecutivas conquistas territoriais ocorriam sobre a Península Itálica, Grécia, Egito e Ásia Menor, o Senado romano via-se sobrecarregado devido à difícil administração visto que, o número de escravos aumentava junto com as insatisfações da plebe e com a fome dos pequenos agricultores. Criou-se então, por volta do ano 100 a.C o sistema de triunvirato, onde três homens ficariam no encargo da administração de Roma. O primeiro triunvirato foi composto por dois generais do exército romano- César e Pompeu- e por um “mero” patrício- Grasso. E sucedeu que, com a morte de Grasso, as disputas pela centralização do poder entre César e Pompeu tiveram início, culminando na Segunda Guerra Civil da República de Roma. Julio César, cheio de si, viu-se e foi capaz de vencer a oposição do Senado liderado por Pompeu, ao seu governo ditatorial. À medida que o apoio da plebe a César aumentava, aumentava também seu número de inimigos no Senado de forma que foi  iniciada uma perseguição contra ele. Sabendo da perseguição liderada por Pompeu, César decide voltar para Roma. Pompeu, surpreso com a rápida marcha de Júlio César sobre a Itália, cruza o Adriático e se esconde na Grécia. Os generais se enfrentaram em três batalhas, das quais César saiu vitorioso. Porém, foi na batalha de Farsália, que Pompeu teve seu revés definitivo, fugindo para o Egito onde foi assassinado pelo conselho do faraó Ptolomeu XIV. Finalmente, quando chega ao Egito, César recebe um presente um tanto quanto inusitado. Uma bandeja lhe foi apresentada e nela, a cabeça de Pompeu. Apesar de livros e sites afirmarem que Júlio César ficou horrorizado, eu acho que não, pois estava evidente a sua ânsia pelo poder ditatorial em Roma. Maquiavel diria que os fins justificam os meios e eu lhe perguntaria: será?“