As crises de 1873 e 1929 e a cidade de São Paulo: a região da “cracolândia”

Publicado em 13/05/12

O texto abaixo é do Flávio Tapajós (3E2/10) e dscute a influência de duas grandes crises do capitalismo, a de 1873 e a de 1929, na formação da cidade de São Paulo, tomando como exemplo uma região bem polêmica, a “cracolândia”, que no final do século XIX abrigou grandes mansões dos brarões do café e atualmente luta por se afirmar como um bairro da cidade novamente, superando a condição de terra de ninguém do tráfico e consumo de drogas.

“Há 162 anos, havia na câmara de São Paulo um projeto de transformar parte de onde é hoje a “cracolândia” em um cemitério, mas por estar muito perto do núcleo habitacional de São Paulo, preferiram construí-lo na rua Consolação. É claro que não se chamava a região de ‘cracolândia’, além do que, a droga sequer tinha sido inventada na ocasião. Tratava-se do bairro do Campo Redondo.

Tudo começou com Irineu Evangelista de Souza grande investidor ferroviário do segundo império, e portador do título Barão de Mauá, que comprou em 1865 de Robert Sharpe a Chácara Boa Vista. Sete anos depois, observando o grande movimento gerado por seu investimento: a São Paulo Railway, o Barão tenta lotear sua chácara e pede à prefeitura para que arcasse com as despesas de calçamento das ruas. Era interessante para a prefeitura; quanto mais moradores, mais impostos a serem pagos, no entanto, acho que se o Barão de Mauá fosse reviver sua vida, não teria repetido essa atitude.

Você, atento estudante de história, reparou que estamos em 1873 e que, devido à segunda revolução industrial teremos, no ano seguinte, o começo da primeira grande crise do capitalismo. O Banco Mauá & Cia. decretou falência em 1878 por influência da crise, entretanto até hoje não se chegou a um consenso sobre o exato motivo pelo qual isso teria acontecido. O importante é que os investidores e produtores de café deixaram de confiar em casas bancárias e aderiram à especulação imobiliária na cidade de São Paulo.

Foi com esse espírito que, a onze de março de 1878, o suíço Frederico Glette começou a comprar as chácaras do Campo Redondo, incluindo a do Barão. Elas foram loteadas e revendidas em sociedade com o empresário alemão Victor Nothmann. Eles obtiveram um lucro de oito vezes mesmo tendo pavimentado todas as ruas propriamente e criando infraestrutura adequada para a classe social a que queriam vender. Nasce o bairro Campos Elíseos, com claras alusões à região parisiense de nome Les Champs Elyseès, existente desde o século XVI.

Como já sabemos, o resto do mundo parou de tomar café durante a crise de 1929 e, consequentemente, o preço desta mercadoria foi incrivelmente desvalorizado. Note-se que as pessoas mais ricas da cidade eram os cafeicultores, ou seja, muitas mansões foram vendidas. Como resultado, tem-se o aparecimento de indústrias nos bairros mais refinados. Há registros que, em 1931, havia no Campos Elíseos 27 estabelecimentos industriais, quatro anos depois havia 50, e em 1945, 160. Empresas optavam pelo bairro por sua proximidade às linhas férreas, entretanto não tinham o mesmo cuidado estético para com o bairro.

A demanda rodoviária dessas industrias fez com que o governo alargasse as vias públicas, como a Av. Rio Branco, a rua Barão de Limeira, e a rua Duque de Caxias. Para isso, diversos palacetes foram postos a baixo. Entretanto, o fator determinante para a completa degradação do bairro foi o estabelecimento da rodoviária na Praça Júlio Prestes em 1951. A rodoviária coincidiu com a migração em massa a São Paulo, fenômeno dado pela ilusão de uma vida melhor na metrópole, que causou a marginalização de diversos viajantes, no bairro dos Campos Elíseos.

Hoje se tem as políticas públicas tentando reverter um século de história onde as crises do capitalismo e a má atuação do estado, foram fatores determinantes para a degradação socioeconômica… Mas o que me preocupa mesmo é pensar: O que escreverão sobre Alfaville em cem anos??? 

Este texto foi baseado na tese de Talita Ribeiro, ‘A cracolândia que você não vê.’. Quem quiser saber mais (e tiver muito tempo…), pode ler alguns trechinhos dessa tese  em http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/8/8136/tde-01062007-132814/pt-br.php, ou pode visitar o bairro pessoalmente…”

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