Chico & Millor

Mesmo num país que se congratula pelo inabalável bom humor da população, não há como evitar o lugar-comum da “perda insubstituível” para comentar o desaparecimento, em curto intervalo de tempo, de dois de seus maiores artistas, Chico Anysio e Millôr Fernandes. O talento cênico de Chico Anysio o transformou num grande criador de personagens, capaz de fixar para a imensa maioria dos brasileiros as variedades de seus traços regionais, as mudanças de seus hábitos cotidianos e as fraquezas, nem tão mutáveis, de sua vida política.

O talento de Millôr Fernandes encaminhou-se para formas bem diferentes de expressão. Foi nas artes visuais, área em que demonstrou impressionante versatilidade, e na palavra escrita, no epigrama, na fábula, na poesia e na tradução, que Millôr soube transcender, rumo a altos níveis de estética e erudição literária, o âmbito do puro entretenimento, em que foi, não obstante, um mestre”.

Folha de S.Paulo.  Editorial.29/3/2012

Roberto Nasser

Comissão da Verdade. Quid est veritas?

Há muito tempo, o Ensino Médio de hoje era dividido em Clássico, Científico e Normal. O primeiro servia aos alunos interessados nas carreiras de Humanas. O segundo era o caminho para os alunos interessados em engenharia e medicina. O terceiro era para formar professores primários. Eu como aluno do curso Clássico tive entre outras disciplinas, Latim. Pouco me lembro dos meus estudos em Latim, a não ser algumas declinações, alguns textos e expressões como a que está no título deste post.  Quid est veritas? O que é a verdade? Tal expressão me ocorreu quando acompanhei pela imprensa os debates a respeito da Comissão da Verdade. Aprovada pelo Congresso e sancionada pela Presidência em novembro do ano passado, mas ainda sem sair do papel. O objetivo de sua criação foi o de investigar os atos contra os direitos humanos na época da ditadura militar (1964 – 1985). Como resultado, ao longo dessas últimas semanas uma série de vozes a favor e contra têm se manifestado. Civis e militares associados ao período da ditadura militar demonstraram seu descontentamento por tal Comissão. Por outro lado, a OAB (Ordem dos Advogados do Brasil)representando diversos setores da sociedade civil brasileira, argumenta que os sequestros de desaparecidos são crimes permanentes já que as vítimas nunca foram encontradas. Dessa forma, os responsáveis não podem ser beneficiados pela Lei de Anistia, que perdoou os crimes cometidos até 15 de agosto de 1979. Qual é a opinião de vocês, alunos do Band?

Quid est veritas?

Roberto Nasser

A lógica do censor:censura em peças teatrais entre os anos 30 a 70

A censura está presente na história do Brasil, mesmo em períodos de democracia. É sobre este aspecto que o jornal da USP, de 18 de março de 2012,  publicou uma matéria revelando, a partir de cortes em peças teatrais entre os anos 30 e 70,  concepções da censura sobre temas polêmicos.

Para saber mais: http://espaber.uspnet.usp.br/jorusp/?p=20866

Roberto Nasser

Domitila de Castro, a Marquesa de Santos

Domitila de Castro, a Marquesa de Santos ficou conhecida por ter sido a amante do imperador D. Pedro I. Novas pesquisas históricas estão refazendo esta visão, mostrando que ela foi muito mais do que a amante de D.Pedro I. O jornal da USP, de 18 de março de 2012, divulgou a exposição “A Marquesa de Santos: uma mulher, um tempo, um lugar”, com a curadoria de Heloisa Barbuy, historiadora e professora do Museu Paulista da USP. O objetivo desta exposição é mostrar as várias facetas da Marquesa de Santos e suas influências na história do Brasil e na de São Paulo.

Para saber mais: http://espaber.uspnet.usp.br/jorusp/?p=20906

Roberto Nasser

Aziz Ab’Saber, geógrafo e humanista

Bertold Brecht, pensador alemão escreveu. “Há homens que lutam um dia, e são bons; Há outros que lutam um ano, e são melhores; Há aqueles que lutam muitos anos, e são muito bons; Porém há os que lutam toda a vida Estes são os imprescindíveis” O Professor Aziz Ab’Saber estava na categoria dos imprescindíveis para o Brasil e para o mundo.Professor e  pesquisador, Aziz Nacib Ab’Saber, um dos maiores especialistas brasileiros em geografia física e referência em assuntos relacionados ao meio ambiente e impactos ambientais decorrentes das atividades humanas, morreu nesta sexta, dia 16 de março, aos 87 anos.

Professor emérito da FFLCH-USP, ele é autor de mais de 300 trabalhos acadêmicos e considerado referência da geografia em todo o mundo. É autor de estudos e teorias fundamentais para o conhecimento dos aspectos naturais do Brasil. Era presidente de honra e ex-presidente e conselheiro da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC).

http://www.estadao.com.br/noticias/vidae,morre-o-geografo-aziz-absaber,849376,0.htm

Roberto Nasser

O século sem bússola

O texto abaixo apresenta a resenha de uma peça chamada O Palácio do Fim, e foi feita pela Beatriz, da 3H2. Só para mostrar o quanto ainda existe de século XX em nós, apesar de toda a tecnologia que temos.

“O século XX, a humanidade presenciou não só duas guerras mundiais, mas tantas outras advindas de conflitos étnicos, religiosos, geográficos e políticos, que também contribuíram para que se estabelecesse um tempo marcado pela dor e pela morte de milhares de pessoas ao redor do mundo. Boquiaberta, a humanidade também presenciou o mais impactante atentado terrorista da história logo na virada do século, em 11 de Setembro de 2001. E então a chamada ‘guerra ao terror’ começa… Escrito por Judith Thompson e encenado por José Wilker, o espetáculo Palácio do Fim reúne densos relatos de um período de dúvidas e infortúnios pelo qual a sociedade passou e passa. E a autora coloca o dedo na ferida causada pelos conflitos bélicos entre o Iraque e os Estados Unidos. O título faz referência à câmara de tortura de Saddam Hussein que funcionava no antigo Palácio Real, em Bagdá. Baseadas em histórias reais, as diferentes perspectivas das personagens se transformam em depoimentos um tanto pesados sobre a guerra, nos quais os conceitos de ética e de verdade estão sob clara influência do sentimento de ambição e de poder. Indicado a quatro categorias do Prêmio Shell (Melhor DireçãoMelhor Atriz – Vera Holtz, Melhor FigurinoMelhor Iluminação) do Rio de Janeiro, a produção chegou a São Paulo em janeiro de 2012. Tive a oportunidade de assistir sua – infelizmente – última apresentação, no SESC, domingo passado (11). Já estou atrás de informações sobre uma possível prorrogação da temporada. Se for acontecer, querido leitor, ficará sabendo.”

Para o texto completo, visite o blog da Beatriz no seguinte endereço: http://semnuncaesqueceraloucura.blogspot.com

A Bruna foi a Israel e não viu o socialismo.

Há aproximadamente um mês, quando eu estava tratando dos socialismos com as turmas de biológicas e exatas, a Bruna, da 3B2, me escreveu uma mensagem contando sua viagem a Israel, e o que ela presenciou do que sobrou de uma das experiências socialistas mais interessantes produzidas no século XX: os kibutz, comunidades agrícolas de caráter coletivo que começaram a ser fundadas no início do século XX por judeus europeus socialistas (geralmente oriundos da Europa Oriental) que imigravam para o Oriente Médio em busca de paz.

O que a Bruna viu? Acompanhe no texto abaixo.

“Em pleno século XXI, com a presença constante de grandes empresas como a Apple e a Coca Cola Company em nossas vidas, o capitalismo dinâmico e globalizado e sua ética parecem reinar sobre tudo e todos. O comunismo e o socialismo parecem sonhos distantes, assuntos apenas de aulas de história, mas, apesar de enfraquecidos, não foram deixados de lado por completo e, longe dos olhos da maioria, conseguem se desenvolver, ainda que de forma limitada.  Estive em Israel nessas férias, e pude ver de perto um kibutz. Influenciados fortemente pelo sionismo, os kibutzim são comunidades socialistas rurais baseados na propriedade coletiva, igualdade e cooperação entre os membros. A quantidade de kibutzim está diminuindo cada vez mais, e os que continuam estão assimilando parcialmente o capitalismo: algumas casas dentro do kibutz são alugadas para alunos de faculdades próximas ou executivos; há moradores que estão lá porque cresceram no local e não querem deixá-lo, mas não participam tanto da vida em comunidade e trabalham na cidade; as casas são compradas e quando seu dono morre, a casa é de posse da família, e não do kibutz, como antigamente; antes, um menino que comprasse uma bicicleta tinha que dividi-la com os outros moradores, o que não acontece agora, etc. Além do kibutz, também conheci um moshav, que é um condomínio, parecido com Alphaville, onde todos os moradores são sócios de uma cooperativa.  Dentro dele há uma escola, uma sinagoga e um centro cívico e a vida em comunidade é bem intensa. Não sei se a proposta dos moshavim é seguir um socialismo menos intenso, mas foi essa a impressão que tive.  Cheguei da viagem muito impressionada, já que tinha uma imagem preconceituosa do socialismo e, para mim, quem era socialista ou era hippie, ou revoltado, ou era forçado a acreditar em um ideal que não era o próprio. Foi chocante ver que a vida no moshav é bem parecida com a nossa, e ao mesmo tempo triste ver a decadência dos kibutzim, que um dia ajudaram a manter viva a esperança de uma série de judeus russos vítimas dos pogroms. Talvez o socialismo realmente seja utópico e fadado a desaparecer.”

 

A Infância roubada na África e a internet

Semana passada eu estava na 3B4 falando sobre imperialismo na África e a tragédia ocorrida no Congo no final do século XIX e aí veio o Pedro Craveiro perguntar se eu conhecia um  didtador africano chamado Kony. Eu disse que não, mas pedi mais informações. Gentilmente recebi uma mensagem dele contando sobre o caso. O sujeito foi ditador em Uganda que utiliza crianças para os mais diversos fins, inclusive soldados no exército do tal ex-ditador. Um ou dois dias depois, o Vinicius da 3B1 queria saber minha opinião sobre o mesmo assunto. Mas eu ainda não tinha! Sexta-feira passada a Júlia Messina, da mesma 3B1, mandou uma  mensagem tratando com acuidade o problema.  Ela escreveu  que existe uma organização “Invisible Children” que faz uma campanha para que os Estados Unidos intervenham no país para salvar as crianças. Reproduzo a parte mais importante: “Quando eu assisti a um vídeo oficial do grupo “Invisible children”, notei que o fator emocional está intimamente ligado à estrategia de convencimento dos espectadores (como em qualquer causa humanitária, claro) e eu realmente pude perceber o problema na Uganda, mas não sei se me convenci tão bem sobre a validade desse projeto….  Achei que foi um pouco ruim o modo como eles canalizaram todo o mal e todo o terror em apenas uma pessoa (Koni). No vídeo, esse homem é colocado como a causa de tudo – ou seja, sua captura implicaria no fim do problema – o que, para mim, não faz sentido! Matar o Osama Bin Laden não acaba com o Al Quaeda nem com toda a estrutura de terrorismo do mundo. Isso me pareceu uma visão um pouco ingênua das coisas… Se o objetivo é acabar com o abuso infantil na Uganda, intervenção militar e morte ao líder não me parece uma solução definitiva. O que quero dizer é que, assim como O Koni surgiu, podem surgir muitos outros, até mesmo do exército da Uganda (ouvi falar também que há organizações militares na África tão corruptas e inescrupulosas quanto Koni).  Mas, se por um lado me pareceu ingênua a maneira como traçaram o objetivo da ação, por outro achei bem sagaz a forma escolhida para divulgá-la. Já é mais do que claro o poder que a internet exerce sobre nós atualmente, ela é uma nova arma para a conquista de opiniões em massa e divulgação instantânea. O poder do público tem se expressado online nos últimos tempos.”  Excelente.

Sobre isso, o Pedro da 3B4 também concorda. E, ao indicar para mim o vídeo da campanha, ele adverte: “creio que é meio parcial também, puxando para o lado que deseja prendê-lo, mas se metade do que falarem já for verdade, a situação já se torna crítica.” (o negrito é meu). Também excelente.

Ambos abordaram o assunto com uma notável capacidade crítica que me faz encerrar este texto feliz com a percepção dos alunos desta escola.

Para terminar de verdade,  também não podemos deixar passar que em no nosso país – uma sociedade democrática em ascensão, relativamente organizada e em certa medida próspera –  também existem crianças que estão tendo suas infâncias roubadas pela prostituição, pelas drogas, e o que é pior, pelo descaso de quem detém o poder e deveria cuidar delas…

Pérsio

 

 

Sobre o nome “Ku Klux Klan”

Determinados temas de História Geral sempre despertam a curiosidade das pessoas. Um deles é o nome de uma sociedade secreta nascida no século XIX nos Estados Unidos, e que poderia rivalizar com o partido nazista se tivesse sido formada no século XX: a Ku Kulx Klan. Quanto cito esta organização nas aulas sobre os Estados Unidos, deixo claro que eu não sei nada sobre este nome e que também não tenho curiosidade sobre isso. Entretanto, semana passada, em uma aula na 3H1, eu disse que se alguém fosse atrás e econtrasse algo sobre isso, eu publicaria no blog.  Pois bem, a Maria Alice, da 3H1, escreveu um texto sobre isso. Bem, promessa é dívida. Maria Alice, aí está seu texto, e obrigado.

” É raro hoje em dia encontrar quem não tenha ouvido falar na Ku Klux Klan, sociedade secreta racista que pregava a ‘supremacia’ branca no sul dos Estados Unidos pós-Guerra de Secessão. Entretanto, quem sabe dizer de onde vem esse nome peculiar ou o que ele significa? Diante de um assunto tão delicado como o racismo exacerbado e o terror imposto por esse grupo (não só no passado como ainda hoje), essa curiosidade é muitas vezes deixada de lado.

    No estado do Tenessee, por volta do ano de 1865, os sulistas, enlouquecidos com a decisão do governo do norte (vencedor da guerra civil) de dar a cidadania aos seus ex-escravos negros, começam a sentir uma ameaça à influência e poder político dos brancos de sua região; evidentemente, havia mais de três milhões de negros (agora livres) em coexistência com seus antigos patrões, com os mesmos direitos políticos e cidadania que estes. Não seria complicado, portanto, que paulatinamente fossem eleitos novos legisladores negros e que estes obtivessem um espaço considerável no governo e nas decisões do Estado, algo aterrorizante para a elite branca e racista.
     Nessas condições, o ódio e o anseio por reafirmar sua autodeterminação levaram os sulistas a impedirem a integração social de seus ex-escravos a qualquer custo: nasce, por fim, o grupo Ku Klux Klan. O nome origina-se da palavra grega kuklos (círculo) e do inglês clan (clã). Há quem considere, no entanto, que o nome seja na verdade uma onomatopeia para o som ao carregar-se um rifle; o que não impressiona, uma vez que os membros da supremacia branca não demonstravam misericórdia ao expressar seu ódio aos negros com quem conviviam. Aliás, muito além dos negros, perseguiam-se também os brancos que se acomodassem com as novas condições, dificultando seu acesso ao mercado, às terras e à convivência com seus conterrâneos. Nesse contexto, recorrer às autoridades era quase que impensável: nunca era possível saber quem era e quem não era pertencente à seita. Restavam, então, somente duas opções: migrar para outras regiões ou adaptar-se às ideologias impostas.
     Por volta do ano de 1870, a KKK foi considerada um grupo terrorista e banida dos Estados Unidos (o que, entretanto, não impediu sua volta no século XX). Apesar de não existir mais formalmente, nos anos que seguiram as cicatrizes deixadas por suas medidas atrozes continuaram a influenciar o cotidiano e o preconceito racial nos estados do sul, no chamado ‘Império Invisível’.”